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O alcoolismo é um castigo

 

O alcoolismo é representado ainda como castigo:

Primeiramente Deus, depois a Fazenda do Sol. Porque eu nunca pensava em passar dois meses do jeito que eu vinha, três meses sem beber. Passava três, quatro dias. Quando chegava o final de semana, parece que era um castigo mesmo. [...] Tá vendo aí o que eu fiz da minha vida? Mas se Deus quiser, Deus vai melhorar não só a minha vida como a de todos que tão aqui na Fazenda do Sol. (VAN, alcoo)

No discurso religioso, o castigosignifica algo que vem para punir uma pessoa de algum mal que ela cometeu. Dessa forma, o alcoolismo é representado pelo entrevistado como uma punição de que a pessoa tenta se livrar e não consegue. A recuperação, nesse discurso, não é conseguida porméritos próprios, mas sim, por uma dádiva de Deus que, dentro do discurso religioso, é visto como aquele que só faz o bem e que tem o poder de mudar a vida. Portanto, tendo fé n'Ele, o entrevistado acredita em sua recuperação.

 

É importante ressaltar, conforme já mencionado, que faziam parte do tratamento dos internos, dentre outras atividades, as missas proferidas pela Igreja Católica, das quais a família também participava. Além disso, a psicóloga que ali desenvolvia um trabalho de terapia de grupo era também católica e usava o discurso religioso nas reuniões com os internos, reforçando a idéia da recuperação como um dom oferecido por Deus.

Na Fazenda do Sol, o próprio coordenador do grupo ("líder espiritual") era um ex-dependente do álcool, que acreditava ter recebido a missão divina de trabalhar com os alcoolistas para ajudá-los em sua recuperação: "Olha, eu tô aqui porque foi uma longa história, eu acho que foi, foi coisa de Deus... Cheguei aqui como um enviado, né? Que recebi o chamado e vim, e esse chamado eu tô respondendo até hoje. Cada vez ele é maior" (ED, coordenador da Fazenda do Sol).

Mediante o exposto, observamos que as representações trazem as marcas do discurso religioso veiculado na instituição. Nesse sentido, um alcoolista,ao representar o alcoolismo como uma doença mental, sugere, em seguida, que ele é coisa do diabo:

 

O alcoólatra é aquela pessoa que ver o álcool em primeiro lugar, troca até Deus, troca até uma oração. [...] Aí é uma doença mental, você não tem controle não. Você tenta se livrar dela, muito difícil, parece que é coisa do diabo, que você quer se afastar, aí mais aparece, pode faltar comida, cachaça não, sempre aparece alguém pra te oferecer. (VAL, alcoo)

 

A Teoria das Representações Sociais define dois processos de formação das representações: a ancoragem e a objetivação. Jodelet (1988), principal colaboradora e continuadora do trabalho de Moscovici, conceitua o processo de objetivação como sendo o modo por meio do qual se faz concreto o abstrato, representado pela palavra que o materializa (intercâmbio entre percepção e conceito).

O segundo processo, o de ancoragem, caracteriza-se pela integração cognitiva do objeto representado dentro do sistema de pensamento preexistente e das transformações derivadas desse sistema. Em outras palavras, ancorar significa incorporar o estranho ao familiar e, assim, tornar o objeto da representação conhecido do sujeito. Constitui-se em relação dialética com a objetivação, resultando na integração da novidade no sistema representativo, na interpretação da realidade e na orientação das condutas e relações sociais, expressando-as e contribuindo para sua constituição.

Observamos, então, que o entrevistado incorpora o conceito de alcoolismo ao pensamento social existente sobre doença mental e sobre o demônio. Interessante perceber como o discurso sugere que a doença mental tanto é algo incontrolável quanto é coisa do diabo. Nesse sentido, adverte-nos Lima Júnior (2003, p.46):

 

De acordo com Foucault (1975), o louco era considerado, até o advento de uma medicina positiva, como um possuído. E todas as histórias da Psiquiatria, até então, quiseram apontar, no louco da Idade Média e do Renascimento, um doente ignorado, preso no interior da rigorosa rede de significações religiosas e mágicas. Assim, teria sido necessário esperar a objetividade de um olhar médico sereno e, finalmente, científico para descobrir a deterioração da natureza lá onde se decifravam apenas perversões sobrenaturais.

 

Por outro lado, é importante sublinhar que, no discurso religioso, o diabo é visto como um tentador. Na seguinte passagem bíblica, vemos que Jesus, aquele que, segundo os preceitos religiosos, é representado como bom, foi tentado por ele: "A seguir, foi Jesus levado pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo" (MATEUS, 4-1) (Bíblia Sagrada, 1993, p.634).

 

Para o entrevistado VAL, o alcoolismo é visto como uma tentação da qual ele quer se livrar, mas isso é muito difícil. O que leva a supor que, para se livrar do alcoolismo, o alcoolista carece da ajuda de Deus.

 

Mariz (1994) apud Campos (2005), em seu estudo sobre os pentecostais, assinala também que, para eles, o alcoolismo não é entendido propriamente como uma doença, mas identificado tanto às causas sociais como à influência do elemento sobrenatural, expresso pelo "inimigo oculto, o espírito maligno - o demônio".

 

Fainzang (2007) sublinha que a ligação entre religião e grupo de bebedores é antiga. Para a autora, a religiosidade demonstrada por certos grupos é percebida por muitos observadores como uma necessidade para compensar a supressão do elemento alcoólico, passando-se assim de uma dependência a outra. Ao analisar os trabalhos dos AAs, a autora defende que os sujeitos se entregam, de fato, a um novo mestre: Deus.

Em relação a esse aspecto, Campos (2005, p.77) afirma:

 

O alcoólico anônimo deve ter um orientador ao qual deverá se entregar da mesma forma que se entregava ao álcool. Deus vem substituir sua antiga referência, o álcool. É esse novo "senhor" que passará a organizar a sua vida, fazendo perdurar a relação de dependência na qual o alcoólico está inscrito. (grifo do autor)

A marca do discurso religioso nas representações dos nossos entrevistados nos leva também a refletir sobre a seguinte consideração: as representações sociais refletem o contexto em que elas estão sendo veiculadas. Nesse sentido, Spink (1993, p.93) assevera:

 

Sendo uma forma de conhecimento, é inevitável que o estudo das Representações Sociais esteja fortemente ancorado à esfera cognitiva. Mas, o conhecimento, nessa perspectiva, jamais poderia ser entendido apenas no nível individual. Sendo produto social, o conhecimento tem de ser remetido às condições sociais que o engendraram. Ou seja, só pode ser analisado tendo como contraponto o contexto social em que emerge, circula e se transforma.

Não podemos perder de vista também que a destinatária do discurso - no caso, a entrevistadora - era estagiária da instituição. Portanto, representava-a, de certo modo. Talvez o discurso tenha sido construído com base nas expectativas religiosas, que os entrevistados acreditam ser as da instituição e aquelas expectativas que a agradam. Também não desconsideramos que o próprio fato de escolherem um tratamento com base na religião já denota uma opção religiosa. Vale ainda ressaltarque nenhum familiar representou o alcoolismo como doença mental ou