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Introdução:

 

O álcool tem sido apontado como a droga mais consumida ou, pelo menos, experimentada no Brasil. A facilidade com que essa droga é comercializada - por ser lícita- tem favorecido o seu elevado consumo, o que é apontado como umas das causas do alcoolismo, um problema que atinge milhões de brasileiros, que é considerado, por órgãos competentes, como um dos maiores problemas de saúde pública no Brasil e um dos grandes responsáveis por fatalidades em acidentes de trânsito, homicídio, suicídio e agressão (Bucher, 1992).

 

Pesquisas epidemiológicas demonstram que o consumo do álcool continua crescendo. As pesquisas mais abrangentes sobre o uso dessa droga foram as realizadas pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID). Realizaram-se quatro estudos (1987, 1989, 1993, 1997), nas mesmas dez cidades, todos com estudantes de 1º e de 2º graus, empregando-se a mesma metodologia. Quanto ao uso pesado de álcool, observou-se um aumento significativo na maioria das cidades estudadas, mostrando que, nos últimos anos, a juventude tende a beber com mais freqüência (Galduróz, Caetano, 2004).

Carlini et al. (2002) realizaram um levantamento sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil, abrangendo as 107 maiores cidades do país. Os resultados obtidos revelam que o consumo de drogas lícitas, especialmente o álcool e o tabaco, é superior ao das drogas ilícitas: 11,2% da população pesquisada é dependente do álcool.

 

Como afirma Alfaro (1993), estudos sobre o alcoolismo são relevantes, pois se fazem urgentes novos elementos para a compreensão do fenômeno, já que se trata de um problema de saúde pública com custo social. Nessa perspectiva, encontramos vários estudos que têm provocado uma reflexão sobre essa temática. O estudo realizado por Neves (2004), por exemplo, ressalta que é preciso compreender os modos moralizantes de representação do alcoolismo: seus efeitos sobre a construção das relações sociais e sua atribuição como fator dissolvente de unidades sociais fundamentais, como a família, ou perturbador do exercício de papéis básicos, como o de trabalhador e esposo.

 

Em consonância com esse pensamento, Mota (2004) defende que, embora o álcool, de certa forma, seja considerado, inicialmente, como um agente produtor de sociabilidade - um dos significados da bebida em nossa sociedade -ao qual se atribui um valor positivo, ele se torna, para uma parcela da população, um agente de dissociação, um fator que gera rupturas no campo das relações sociais, na família e no trabalho.

 

Por outro lado, as propostas mais recentes na área de saúde pública evidenciam novas expectativas com relação ao papel da família, ressaltando o seu comprometimento no processo de promoção e prevenção da saúde, haja vista a própria Lei de Reforma Psiquiátrica no Brasil (Lei 10.216/2001).

Em virtude dessas considerações, desenvolvemos, inicialmente, uma pesquisa, vinculada ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), que privilegiou a representação social de alcoolistas em tratamento sobre o alcoolismo. Naquela pesquisa, comparamos as representações sociais sobre o alcoolismo, formuladas por alcoolistas em tratamento, no Centro de Recuperação para Dependentes Químicos Fazenda do Sol, com as de alcoolistas da Clínica Psiquiátrica Dr. Maia, ambas situadas em Campina Grande/Paraíba.

 

Em conseqüência de estarmos estagiando no Centro de Recuperação Fazenda do Sol, o nosso interesse cresceu no sentido de ampliar a compreensão sobre o alcoolismo, razão por que optamos por desenvolver uma pesquisa escolhendo, mais uma vez, aquela instituição.

 

Sendo assim, realizamos uma pesquisa em 2004, cujo objetivo principal foi o de comparar as representações sociais sobre o alcoolismo, formuladas por alcoolistas em tratamento na Fazenda do Sol, com as de seus familiares. Os nossos objetivos específicos foram: analisar os fatores que alcoolistas e familiares apontam como responsáveis pela dependência; verificar em que medida o discurso religioso, inscrito na forma de tratamento da Fazenda do Sol, interfere na elaboração das representações dos alcoolistas sobre o alcoolismo, como também se existe alguma marca do discurso religioso nas representações dos familiares; e identificar elementos que assinalem a representação que alcoolistas e familiares elaboram sobre uma possível recuperação. Para isso, fundamentamo-nos na área da Psicologia Social, especificamente no campo de estudos da Teoria das Representações Sociais.

Para Moscovici (1978), a representação social é um conjunto organizado de figuras (que se constituíram em imagens) e de expressões socializadas (que se constituíram em linguagem) que realçam e simbolizam as situações e os atos. A representação produz comportamentos, visto que define a natureza dos estímulos que nos rodeiam e provocam; ao mesmo tempo, determina esses comportamentos, à proporção que define o significado das respostas a serem dadas aos estímulos.

 

A representação social é uma modalidade de conhecimento particular, resultante de uma atividade psíquica, ligada a valores, normas e regras sociais, cuja função é a de elaborar conhecimentos, comportamentos e comunicação entre indivíduos. Ao representar, o indivíduo reproduz um objeto (que pode ou não ser socialmente valorizado). Enquanto reprodução do real, a representação não pode ser analisada apenas como um reflexo de um objeto na consciência individual ou coletiva. Ela detém um caráter ativo, uma vez que tal reprodução implica um remanejamento das estruturas, uma reconstrução de dados, uma remodelação dos elementos. O indivíduo, sobretudo, cria; repensa o objeto, reexperimenta-o e o refaz. "Aliás, o dado externo jamais é algo acabado e unívoco; ele deixa muita liberdade de jogo à atividade mental que se empenha em apreendê-lo" (Moscovici, 1978, p.26).

Assim, entendemos Representação Social como sendo uma forma de conhecimento que é elaborado cotidianamente pelo indivíduo e que tem, ao mesmo tempo, origem e conseqüência na produção de comportamentos e na comunicação entre indivíduos.