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Considerações finais

 

Por meio da análise das entrevistas realizadas, constatamos que o alcoolismo foi representado como doença pela maioria dos entrevistados. No entanto, essa representação ora foi associada à tristeza/solidão, ora a um mal incurável, ora a uma doença grave. Foi considerado ainda como: algo que provoca perdas, o ato de beber em excesso, dependência hereditária, castigo, coisa do diabo.

 

Se, de um lado, o alcoolismo é representado como uma "doença do indivíduo", de outro, é uma "doença da família", pois interfere diretamente nas relações familiares. Verificamos, ainda, que o discurso dos AAs, que proferem palestras na Fazenda do Sol, influencia as representações, assim como o discurso religioso veiculado pela instituição, por meio da Igreja Católica.

 

No que se refere aos fatores que os levaram à dependência química, constatamos que apenas um alcoolista assume total responsabilidade pela dependência. Todos os demais, alcoolistas e familiares, atribuem a dependência química a algum fator externo: a problemas vividos na família e/ou às amizades, havendo, também, quem se refira ao desemprego.

 

O estudo das representações sociais nos auxilia a encontrar pistas para entender como os indivíduos pensam e orientam as suas ações. Assim, temos elementos para refletir e encaminhar as nossas intervenções que, a nosso ver, devem privilegiar a autonomia, o poder de decisão, a criatividade e a participação dos atores sociais envolvidos. Então, considerar os alcoolistas como pessoas com todas as suas potencialidades, e não apenas como alcoolistas/dependentes, que necessitam de ajuda, parece-nos um caminho promissor. O questionamento daquelas estratégias terapêuticas que induzem à substituição dadependência química pela "dependência divina" é outro aspecto que deve ser privilegiado nas discussões daqueles que se ocupam dessa temática e dos profissionais que estão envolvidos com as próprias políticas públicas de saúde.

 

Referências

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Recebido em 08/09/07. Aprovado em 25/04/08.

 

 

1 A Fazenda do Sol disponibiliza tratamento apenas para alcoolistas do sexo masculino.
2 A fim de manter o anonimato dos alcoolistas entrevistados, abreviamos seus nomes usando, em seguida, o termo alcoolista, também abreviado, como por exemplo: VAL é o nome abreviado do entrevistado; alcoo significa que ele é alcoolista em tratamento. No caso dos familiares, abreviamos o nome do familiar e, em seguida, explicitamos o grau de parentesco.

3 Segundo Campos (2004), os AAs abordam o alcoolismo enquanto uma doença físico-moral e espiritual. É uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, cujo objetivo é ajudar os alcoólicos a evitar o primeiro gole e, assim, manter sua sobriedade.