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O que os levou ao alcoolismo?

 

De acordo com os estudiosos, os fatores que podem levar ao alcoolismo são variados, podendo ser de ordem biológica, psicológica, social ou, ainda, ter a contribuição de todos esses fatores. Para os entrevistados - tantoos familiares quantoos alcoolistas - os problemas vividos na família e as amizades foram os motivos principais. Entretanto, há aqueles que citam apenas as amizades, outros que se referem a problemas familiares, um que cita os problemas familiares e as amizades e, ainda, aqueles que mencionam o desemprego e as amizades como os fatores que os levaram ao alcoolismo.

 

É importante assinalar que a maioria dos entrevistados não se baseia no modelo biomédico, ou seja, não atribui as causas do alcoolismo ao modelo biológico e fisiológico, mas formula as causas de sua dependência ligadas a um contexto sociocultural específico.

Assim, um dos alcoolistas entrevistados acredita que o que o levou ao alcoolismo foram as amizades, conforme expressa este seu discurso: "Eu acho que foi muito pela amizade. Festinha. 'Vamos ali numa festinha e tal'" (VAN, alcoo).

 

É possível constatar que, segundo VAN, as amizades o influenciaram para sair, ir às festas, e assim, começar a beber até o ponto de tornar-se um alcoolista. Já para seu familiar, os fatores responsáveis por levá-lo ao alcoolismo teriam sidoo desemprego e as amizades, conforme veremos mais adiante.

No momento, vale ainda ressaltar que um familiar também menciona as amizades como sendo o fator responsável por levar seu filho ao alcoolismo:

Quem levou mais ele ao alcoolismo, esses cabras já tão tudo debaixo do chão, não existem mais. Foi as amizades.[...] Meu rapaz mais velho não me dá trabalho, e esse só me deu porque se envolveu com essas mau amizades, porque se não tivesse se envolvido, ele era igual ao rapaz mais velho, não tinha entrado no álcool. (MIR, mãe)

 

Observa-se que, para essa informante, seu filho jamais teria entrado no alcoolismo por vontade própria. Ela afirma que, se não fosse a influência dos amigos, seu filho não teria se tornado um alcoolista. Interessante registrar que o alcoolista entrevistado, filho dessa senhora, confirma que foram as amizades queo levaram ao vício, como podemos constatar na fala:

 

As amizades e até meu pai também, porque ele saía pra beber e me levava junto, pra eu levar ele pra casa. Então eu comecei nessa luta aos nove anos de idade, ele me levava pra os barzinhos e a gente jogava uma sinuquinha, e depois ele vinha bêbado e eu trazendo ele, e eu ficava curioso pra saber como era, né? Então uma vez eu fui pra um aniversário que teve a bebida, [...]aí bebi muito [...] e gostei do clima que ela traz, fica mais agitado. (GEF, alcoo)

Podemos notar que não só as amizades são citadas por GEF como responsáveis por torná-lo um dependente, mas também a influência da figura paterna. Por meio do pai, ele começou a ter contato com ambientes onde existia a bebida, e isso lhe despertou curiosidade, conseqüentemente, levando-o a beber. Não podemos deixar de enfatizar que os efeitos trazidos pelo álcool - os aspectos positivos do álcool, como já explicitamos - são ressaltados como aquiloque o estimulava a beber mais.

 

A influência familiar aparece em outros discursos. Nesse sentido, uma entrevistada associa o alcoolismo, na vida de seu pai, ao fato de ele ter tido influência da própria família para beber: "Então eu acho que foi muito por influência de familiares, meu tio é alcoólatra, meu avô também é alcoólatra, o pai da minha mãe também foi alcoólatra, é de família isso, sabe?" (ELI, filha).

 

Nessa seqüência discursiva, quando a entrevistada diz: "É de família isso", reforça o que já dissera em outro momento de sua entrevista, citado anteriormente, e que nos leva a supor que, para ela, o alcoolismo seria algo hereditário, ou seja, passado em sua família degeração em geração. Há que se ressaltar que nenhum alcoolista associa o alcoolismo apenas à influência de familiares, nem o próprio parente dessa entrevistada.Enquanto ELI atribui o fato de seu pai ter-se tornado um alcoolista a um fator externo, ele é o único de todos os entrevistados que assume a responsabilidade de ter se tornado um alcoolista por si mesmo, segundo confirma seu discurso: "Rapaz, eu acho que foi eu ter começado cedo demais, não me cuidei, aí pronto, me tornei um dependente do álcool." (EVA, alcoo).

 

Em outro momento do discurso do entrevistado acima, ele diz ter começado a beber aos 15 anos. Para Bucher (1992), o jovem, ao buscar a droga, pode estar procurando provar que é alguém, que tem um valor e que, além de ter uma existência própria, é independente. No estudo de Brasileiro, Brasileiro e Ramalho (1999), os autores defendem que a adolescência seria a fase na qual o sujeito experiencia a transição ao comportamento adulto, estando assim suscetível ao consumo abusivo do álcool.

 

Por outro lado, o que mais nos chamou a atenção no discurso de EVA foi que ele não atribui o fato de ter se tornado um alcoolista a fatores externos. Fainzang (2007) defende que há uma diferença nos discursos da causalidade alcoólica no que concerne ao alcoolismo dos homens em relação ao alcoolismo das mulheres. Nas mulheres, há uma tendência a priorizar causas psicológicas, enquanto, nos homens, há uma evocação às causas sociológicas (transmissão, pressão social, más condições de trabalho). Assim, a causa do alcoolismo masculino se situa, então, fora do bebedor (ela lhe é exógena), enquanto ela está dentro da mulher, intrinsecamente frágil (ela lhe é endógena).

 

A autora explica por que isso acontece ao considerar que

É preciso encontrar uma razão psicológica (depressão, fragilidade) para a mulher em quem a alcoolização é estigmatizada, mas não deve haver razão psicológica alguma (sendo necessário evocar o hábito ou a transmissão) no caso do homem, em quem a alcoolização é valorizada, na medida em que ela atesta ao mesmo tempo a sua força física capaz de "agüentar" o álcool e a convivência na qual está inserida. (Fainzang, 2007, p.42, grifo da autora)

O alcoolismo, nas representações dos nossos entrevistados, ainda foi associado à morte da mãe, como mostra a seguinte fala: "A perda da minha mãe, porque eu perdi ela com oito anos de idade, fui morar com o meu pai, com 14 anos saí de casa, sabe? Aí eu comecei a ficar desgostoso, sabe?" (AG, alcoo).

Para esse entrevistado, a perda da mãe trouxe um sentimento de desgosto, desencadeando outros conflitos, o que o fez tornar-se um alcoolista. Supomos que, para ele, o álcool seria representado como um bálsamo para os problemas, como encontramos em outras entrevistas.Portanto o consumo do álcool é representado como aquiloque gera esquecimento dos acontecimentos ruins da vida.

 

Nenhum familiar atribui o alcoolismo à perda da mãe. O irmão desse entrevistado, por exemplo, cita as amizades como sendo o fator responsável por levar seu irmão ao alcoolismo: "Amizade, né? Porque como a gente chama, no linguajar da gente, aquelas almas sebosas, né? Porque antes ele era um menino ótimo, [...] aí depois que começou a se juntar com as amizades, aí começou a beber." (SEB, irmão).

 

A expressão "alma sebosa" nos remete para a idéia de "alma impura". O discurso de SEB ainda sugere que, por causa dos amigos, o irmão deixa de ser uma "pessoa ótima", começa a beber.Nesse sentido, vale sublinhar que o irmão do entrevistado constrói uma imagem do alcoolista como uma pessoa irresponsável, desclassificada, "[...] um homem que não é homem, que nem o povo diz assim: 'é um cachorro'." (AG, alcoo).

Já outro entrevistado atribui à separação dos pais o fator que o levou ao alcoolismo, pois o conflito vivido por ele,por conta da separação, fê-lo tornar-se independente antes da hora, tendo de buscar amigos (de bar) para desabafar os problemas:

 

Primeiro foi a controvérsia na minha família que aí atrapalhou tudo [...] Com esse problema, a gente sem tá preparado, teve que se separar, uns irmãos dos outros, pai e mãe, aí cada um teve que ficar independente, aí onde eu procurei amizades mais pra desabafar dos problemas foi com os amigos de bar, o motivo principal é mais ou menos esse aí, a separação da família. (VAL, alcoo)

Analisando essa seqüência, verificamos que ela nos sugere que o entrevistado, com a separação dos pais, deparou-se repentinamente com alguns problemas e recorreu aos amigos de bar para buscar ajuda.

 

É possível constatar, mais uma vez, a representação de que as amizades levam o indivíduo ao alcoolismo. A irmã desse entrevistado também assinala que seu irmão se tornou um alcoolista por causa das amizades: "Talvez tenha sido falta de trabalho e de oportunidades, acompanhado da influência de amigos. Ele saía pra beber com os amigos e daí começou a vender tudo dentro de casa pra beber, vendeu a casa e isso fez ele entrar cada vez mais no alcoolismo." (RUZ, irmã).

 

Verificamos, com base nesse discurso, que, apesar de a falta de trabalho ser considerada um dos aspectos responsáveis pelo alcoolismo, a influência das amizades também é ressaltada. Não raro, a família, como uma forma de se defender da possível culpa que sentiria ao se considerar responsável pelas escolhas de seus membros, transfere essa culpa para os outros, geralmente os amigos. Esse tipo de argumento protege a instituição social família de quaisquer críticas sobre o seu papel fundamental na socialização ideal esperada (Reis, 1992).

 

Outra familiar também se refere ao desemprego como sendo o fator que levou seu parente ao alcoolismo:

Foi o desemprego. Ele tava desempregado, e você sabe, hoje em dia é comum a pessoa tá desempregado. E tem esposa que quando o marido tá desempregado, ela tando trabalhando, em vez de ajudar, ela quer é destruir. Foi o que aconteceu na situação do casamento dele. Quando ele viu que não conseguia mesmo emprego, [...] se juntou com os colegas e começou a beber mesmo, foi o desemprego que fez ele entrar nessa depressão e nesse alcoolismo. (JOA, irmã)

 

Percebemos, nesse discurso, que o desemprego aparece como algo que veio desencadear problemas no casamento do irmão da entrevistada, gerando nele uma situação que acabou levando-o à depressão e ao alcoolismo. Então, o alcoolismo é desencadeado, também, por questões sociais. No entanto, é importante ressaltar que a esposa e as amizades também influenciaram o irmão da entrevistada a tornar-se um alcoolista.

 

As causas do alcoolismo são, portanto, remetidas, mais uma vez, aos fatores externos. Como vimos anteriormente, apenas um dos entrevistados atribui a si mesmo a responsabilidade por se tornar um alcoolista. Não estamos querendo enaltecer a responsabilização/culpabilização individual, pois sabemos dos inúmeros fatores que interferem na construção da identidade dos indivíduos. Mas não podemos perder de vista que representar esse vício como algo advindo de fatores externos, sem se responsabilizar por esse processo, exime o alcoolista da sua participação no processo de aquisição do vício de beber, reforçando a necessidade da ajuda de Deus para deixá-lo.

 

Assim, como adverte Campos (2004), o alcoolista, assumindo a condição de passividade frente ao alcoolismo, exime-se da culpa por ter ingressado nesse mundo e se sente impotente, necessitando, pois, de procurar ajuda.