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Reorganização moral da identidade como alcoolista

 

Verifica-se a importância que esses sujeitos atribuem ao "papel de doente", interferindo na forma como eles reorganizam suas identidades após o diagnóstico, conforme descrito por Alves (1993). No papel de doente, há uma relativa desresponsabilização do sujeito, porquanto atribui o comportamento à doença da qual é portador, desobrigando-o do ônus da mudança, desde que se submeta ao tratamento prescrito. Livra-o também da pecha moral do alcoolismo (vadiagem, sem-vergonhice). Os entrevistados referem alívio ao poder atribuir seu comportamento a uma patologia, ao invés de a uma falha de caráter. Mesmo assim, os pacientes manifestaram preocupação em afirmar as próprias virtudes e apresentaram ambiguidades ao ponderar sobre o alcoolismo enquanto doença versus alcoolismo enquanto vício (falha de caráter), mostrando que a dimensão moral está no fundo da racionalidade em que se lançam para os processos de recuperação.

 

Para eles, a concepção de alcoolista, como apreendida nos serviços de saúde em que passaram, implica uma reorganização da identidade, agora como dependente do álcool. Embora traga alívio, assumir o papel de doente não exime o sujeito de se debater com questões morais. A separação entre a doença e a falha de caráter permanece como uma fronteira nebulosa e móvel para o indivíduo, que precisa então resgatar suas qualidades morais e modificar o olhar que os outros dirigem a ele (reivindicando reconhecimento de suas qualidades e esclarecendo que o alcoolismo é uma doença).

Essas questões têm por base a racionalidade social predominante, que de maneira geral é determinista, e não dialética (Schneider, 2010). Portanto, predomina nos serviços (e entre esses sujeitos) uma visão do alcoolismo a partir de um reducionismo biologicista (a ontologização da droga em si e a noção de doença crônica) e que não considera os aspectos psicossocias na determinação do alcoolismo.